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domingo, 3 de outubro de 2010

ESCOLHENDO A SUCATA

Após a decisão pela reforma já tomada e com a certeza de que esta psicológicamente preparado para o desafio, inicia-se uma nova etapa, tão decisiva quanto a primeira: a escolha da moto!

Esse texto é genérico, trato apenas de linhas gerais, cada moto tem que ser avaliada no contexto do projeto e do perfil do futuro proprietário e lembre-se, a decisão final, com todos os seus ônus e bônus, será sua, não tente depois culpar ninguém pela besteira que está prestes a fazer.

Qual moto reformar? Qual modelo? Qual ano?

Caso já tenha a moto que pretende restaurar, a leitura desse tópico não se faz necessária, se não a tem, um novo dilema está posto.

A primeira sugestão que faço é de que se procure restaurar uma moto com a qual você tenha empatia, seja porque seu pai ou seu avô teve uma, porque você já teve uma, porque foi a primeira moto que andou, viu em um filme ou sempre foi um desejo antigo. Uma grande vantagem de se restaurar um modelo com o qual já se tem intimidade, é que reduz muito a possibilidade de se comprar gato por lebre, você conhece a moto, sabe reconhecer o que é original ou não, isso facilita muito na hora da compra da sucata. Restaurar um objeto pelo qual se nutre uma paixão é sempre mais prazeiroso, sei que isso parece óbvio, mas já vi um incauto comprar uma antiga “qualquer” só porque apareceu a oportunidade de comprar barato, ai entra no restaurar por restaurar, desanima e desiste, daí fica aquele trambolho pela metade, a mulher atormentando, acaba vendendo por menos que gastou e sai dizendo que reformar não vale a pena .

Se não conhece bem o modelo que está comprando, procure alguém que conheça, se for algum mecânico que não seja seu amigo pessoal e se você não vai reformar a moto com ele, não se esqueça de remunera-lo! Se for amigo, pague ao menos uma cerveja ou uma incursão a uma casa de facilitações!

Cuidado com os modismos, tentar reformar a “bola da vez” pode não ser uma boa pedida, em primeiro lugar vai acabar pagando caro pela base do projeto, pois como se trata de objeto de desejo atual, será supervalorizado, uma sucata sendo vendida a preço de restaurada porque é o “tal” modelo. Em segundo, uma reforma bem feita, se você for amador como eu, dura em média dois anos ( e em muitos casos, mesmo com profissionais, dura até mais ) e corre-se o risco de que quando a moto estiver pronta a moda já pode ter passado, o que será decepcionante se o interesse for apenas de estar na onda.

Vale a pena?

Se for pensar apenas do ponto vista econômico, geralmente não! As motos para reforma estão muito caras, e a reforma, se bem feita, não fica assim tão barata, as vezes vale mais a pena pegar uma pronta ( subentenda-se reformada por alguém conhecido ou moto que você já conheça ) do que se aventurar no processo. Fora que esse tipo de brinquedo tem dois preços, se você quiser comprar ou se você precisar vender, e um geralmente é o dobro do outro! Não há grande liquidez, porém há retorno diário com a economia feita em honorários de advogados e médicos. Uma das grandes vantagens é que o pagamento se dá de forma diluída, no correr da reforma, em alguns meses se gasta mais, em outros menos e o gasto pode ser interrompido a qualquer tempo, retornando quando a situação melhorar. Um outro detalhe deve ser ponderado, alguns custos são fixos independentes do valor da moto, cromar o paralamas dianteiro ou o aro de roda de uma CG 125 ou de uma K 750 custa o mesmo preço, portanto gastar uma fortuna em uma moto que depois de pronta não terá muito valor de revenda só vale a pena se for aquele caso de paixão descrito lá em cima.

Onde procurar?

Hoje com a internet tudo ficou mais fácil, porém mais caro, não existe mais aquela moto antiga completa encostada em um galinheiro no interior de Minas, e se existe, o herdeiro já sabe quanto vale. As melhores motos geralmente são as conseguidas no boca a boca, mas para isso tem que perguntar. Uma vez vi um anúncio de uma Indian antiga no Mercado Livre, DDD do Rio de Janeiro, não tinha interesse pela moto, mesmo assim liguei e perguntei se o dono não tinha nada de HD antiga, pois bem, uma semana depois estava com um servicar 1957 ( ou ao menos boa parte dele ) na garagem. As coisas nunca caem no colo, pelo menos não no meu. As vezes se acha moto antiga boa até no Orkut! Tem que vasculhar tudo, frequentar encontros, foruns, bares, butecos e puteiros. Uma grande fonte de informações são os motoclubes tradicionais, a grande dificuldade é que as antigas geralmente são comercializadas entre os próprios membros do clube pois o antigo proprietário sempre tem a esperança de recompra-la, mas as vezes escapa alguma.

Quanto pagar?

Essa resposta é simples, o mínimo possível! Porém não espere milagres nem menospreze as pessoas com propostas ridículas. Costumo receber fotos de HDs antigas com as pessoas me perguntando se vale o que estão pedindo, se for pensar no prazer de reformar, ter e rodar com uma coisinha dessas, a resposta é sim, vale! Tudo depende da vontade que você está de ter a moto e do seu poder aquisitivo. Não existe tabela para moto antiga, ainda mais a restaurar, cada um pede quanto acha que vale, acompanho vários anúncios e geralmente o preço inicial vai caindo com o passar do tempo. Se não se consegue um desconto, consegue-se no mínimo o parcelamento. Tente na medida do possível separar a razão da emoção, a menos que a moto esteja muito completa ou muito barata, não compre a primeira moto por medo de perde-la, pode até demorar um pouco, mas vai achar outras, e depois que comprar a sua moto, pode ter a certeza de que ai vai achar várias...

Qual o estado da moto ?

Vai depender de qual o seu projeto para ela, se pretende fazer uma moto original, todo friso é importante, se pretende customiza-la, a ausência desse friso já não fará diferença. Portanto, o ideal é que o seu projeto para a moto já esteja definido quando sair a caça da sucata, porém prepare-se para mudar completamente o projeto ao menos umas duas vezes, é o que acontece comigo! Só como ilustração, uma HD 750 faltando algumas peças pode ser transformada em uma bobber, faltando muitas peças pode ser transformada em uma racer.

A melhor pedida é sempre a moto funcionando, não importa o estado que esteja. Em segundo a moto montada sem funcionar, essa sempre vai vir acompanhada da explicação de que parou funcionando, só que ninguém nunca mais ligou e seria melhor dar uma revisada antes de tentar funcionar, subentenda-se que quebrou e ninguém nunca mais conseguiu fazer funcionar, tem que abrir motor e câmbio ! E por último, a moto desmontada. Dessa, se você não for iniciado em reforma, em mecânica ou se não souber reconhecer cada peça da moto em questão, mantenha distância !!

Tão ou até mais importante do que a presença das peças, é o estado em que elas se encontram, uma peça em mau estado pode custar mais caro para ser recuperada do que a sua reposição por uma nova. Não se impressione com peças pintadas, por baixo podem esconder surpresas, prefiro uma peça enferrujada que mostre o que realmente é. Tenho peças que não tive coragem de usar nas reformas e que juntas já são suficientes para montar quase que uma moto inteira.

Esse tanque de óleo, por exemplo, estava pintado, “pronto”, resolvi tirar a tinta para refazer em epóxi, depois de tirar toda a tinta encontrei a massa, depois de retirar a massa sobrou isso:

Prefiro uma moto com ausência de peças do que com adaptações. O retorno da originalidade ou apenas da funcionalidade ou da segurança podem custar tão caro que inviabilizem o projeto. Uma frente de moto japonesa em uma HD antiga, pode facilmente ser descartada, porém, se foi feita alguma alteração no quadro para recebe-la, a coisa pode complicar. Incrível como as pessoas não tem dó de usar solda, furadeira e esmerilhadeira nessas motos antigas.

Aqui vai uma complementação dos textos anteriores e um alerta: uma HD antiga, mesmo restaurada, não deixa de ser uma moto antiga, se for a sua única moto e todos os seus amigos tem moto nova, a experiência pode ser decepcionante, dá para pegar uma estrada e voltar, já fiz 360 Km em um dia com uma flathead 1946, mas também já voltei no meio do caminho pois percebi que não ia chegar. Nesses oito anos rodando única e exclusivamente com HDs antigas ( tudo bem, confesso que as vezes rodo com uma Honda 1983 ), só não voltei por meios próprio uma única vez e a culpa foi da tecnologia, queimou a ignição que eu havia colocado na Shovel ! Desde que recoloquei o platinado é só alegria. Se pretende rodar diariamente, fazer viagens mais longas, acompanhar as novas e rodar com garupa, parta para uma Evolution.

A partir de agora os textos serão mais técnicos e tratarão especificamente das HDs antigas, no próximo capítulo, que provavelmente terá que ser desmembrado em dois: “Como identificar uma HD antiga”

Hadys

www.jurassicmachines.com.br

3 comentários:

// Bayer disse...

Perfeito Hadys!

Postei um link pro Jurassic lá no meu blog.

Abrs,
Daniel B. do FHD

Toecutter disse...

Eu sabia que tava esquecendo de procurar motos em algum lugar, valeu pela lista !

Camata disse...

E vou acompanhando...

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